CAMINHOS DE PORTUGAL  é uma rubrica do Maisfutebol que visita passado e presente de clubes dos escalões não profissionais. Tantas vezes na sombra, este futebol em estado puro merecerá cada vez mais a nossa atenção.

ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA DE MAÇÃO: equipa promovida ao Campeonato de Portugal

«Há um quadro que ainda hoje tenho guardado na memória, de um senhor de idade a olhar no horizonte para tudo o que tinha e que agora era nada: estava tudo ardido.»

As palavras são de João Vitorino, treinador que conduziu esta época a Associação Desportiva de Mação a uma subida inédita aos campeonatos nacionais em 40 anos de existência.

O técnico, de 60 anos, diz que o título de campeão da AF Santarém é dedicado aos maçaenses, que viram quase toda a área do concelho ser consumida pelos incêndios do verão de 2017.

«Eles merecem isto depois de tudo o que sofreram. Quando eu ia de Nisa para Mação, passava por sítios onde ainda fumegava semanas depois. Não havia nada que não tivesse ardido e até o nosso campo esteve quase a arder em agosto. Nessa altura, eu e alguns jogadores estivemos três dias sem conseguir chegar a Mação para treinar por causa das chamas, que chegaram a estar pegadas às bombas de gasolina que ficam ao lado do estádio. Foi um pandemónio.»

Luís Esteves, capitão da AD Mação e com mais de 20 ligados ao clube, é técnico de recursos florestais e ambientais numa empresa, e faz parte da Proteção Civil da terra. Mais do que de perto, viveu esse pandemónio por dentro. Em julho e, mais tarde, em agosto, onde a área total ardida do concelho ultrapassou os 80 por cento. «Estive cinco dias sem dormir, de um lado para o outro. Mação estava parada e nós fomos jogar a eliminatória da Taça de Portugal [n.d.r.: contra o Fátima] praticamente sem treinar», recorda meses depois, sem esconder a angústia que a paisagem desoladora lhe provoca.

«Como é ver tudo transformado do dia para a noite? É complicado, acredite. Muita gente vê isto na televisão, mas a perceção não é a mesma. Para quem gosta da floresta e anda todos os dias lá, como eu, é complicado. Agora há que renascer, como diz o cartaz do município. Renascer e cuidar do pouco que sobrou», aponta.

O futebol é um simples acessório ao pé das vidas humanas e do que demora uma vida a construir e que, de repente, desaparece. Mas, ainda assim, João Vitorino procurou recorrer a ele para ajudar a dar pinceladas de esperança à paisagem quase monocromática que se estende por milhares de hectares ardidos de pinhal. «Tentei sempre dizer aos meus jogadores que as nossas vitórias eram uma forma de amenizar o sofrimento das pessoas.»

E foram. As vitórias sucederam umas às outras, a um ritmo sem precedentes na história da associação que celebra 40 anos em novembro que vem. Logo a seguir à derrota na eliminatória da Taça de Portugal, veio a Supertaça ganha ao Coruchense e agora, a 15 de abril de 2018, seguiu-se a subida aos nacionais e a consequente conquista do título de campeão distrital a três jornadas do final do campeonato.

João Espírito Santo já foi quase tudo na Associação Desportiva de Mação. Começou como jogador, foi diretor da formação, diretor desportivo e treinador. É presidente há oito anos e está agora a iniciar o quinto mandato à frente do clube. «Acompanhei a história da Associação desde o princípio. Já tivemos momentos importantes no clube, como vencer a Taça do Ribatejo duas vezes, mas o momento mais especial foi conseguido este ano: é sem dúvida o nosso maior feito», assume.

Ao contrário de João Vitorino, que diz posto a fasquia lá em cima logo no início da época nesta que é a segunda passagem pelo comando da equipa 12 anos depois da primeira, o dirigente tinha uma ambição mais contida, ainda que o objetivo passasse por fazer boa figura e cheirar os lugares cimeiros. «Temos tido sempre boas equipas mas nunca nos preparámos nestes últimos anos para subir aos nacionais. Este ano, se calhar esse também não era o objetivo principal, mas fizemos um esforço para aumentar um bocadinho a qualidade da equipa porque, depois de ganharmos a taça do Ribatejo, íamos à Taça de Portugal e queríamos dignificar o clube, fazer boa figura. E a coisa aconteceu. Nem nós sonhávamos vencer todas as provas em que temos participado. Têm sido momentos muito bons», diz com o orgulho indisfarçável na voz do outro lado da linha a dias da final da Taça da Associação, agendada para este domingo (13) diante do União de Tomar.

No discurso de João Espírito Santo cabe também o flagelo dos incêndios. «Toda a gente perdeu um bocadinho. Acho que não houve ninguém que não tenha perdido nada. Eu também perdi algumas coisas, mas quando olhamos para outras pessoas e vemos o que elas perderam até nos esquecemos de nós, porque houve pessoas que perderam muito mais, que perderam aquilo do qual viviam. O pinhão é uma riqueza enorme no nosso concelho e foi praticamente todo embora. Havia muita gente a viver daquilo», conta.

«Estas vitórias têm um significado ainda maior por causa disso: o facto de conseguirmos minimizar a tristeza das pessoas é muito bom», acrescenta.


Durante a festa da subida a 15 de abril. «Na minha palestra no início da época logo após os incêndios, disse que tínhamos de enraizar a alma maçaense para termos alma de campeão», recorda o treinador João Vitorino

Agora é tempo de começar a planear a próxima época, a primeira numa realidade forçosamente mais exigente. João Vitorino, já com alguma experiência neste patamar, sabe o que é preciso para atenuar o choque e forjar uma época minimamente estável. «Vamos para uma série onde 70 ou 80 por cento das equipas são profissionais. Queremos ficar pelo menos com 70 por cento do plantel e ir buscar alguns jogadores com uma certa experiência para completarmos um grupo de 23. Se tivermos a alma deste ano, a alma maçaense, acredito que podemos ser a surpresa do campeonato.»

João Espírito Santo diz que conseguir a permanência no Campeonato de Portugal já seria uma «vitória muito grande». «Sabemos que vamos encontrar realidades desportivas e financeiras muito diferentes. Não vai ser fácil: há muitas equipas com jogadores que só fazem aquilo e nós não teremos essa possibilidade. Vamos tentar manter-nos lá e depois adquirir experiência e ver como pode ser o futuro».

Um futuro para o qual a equipa de futebol da AD Mação quer contribuir, para que da terra daquela paisagem agora monocromática de tons cinza continue a brotar mais um pouco de verde para a vida dos maçaenses. O verde da esperança. É pelo menos esse o compromisso dos homens liderados pelo treinador João Vitorino. «A alegria estampada no rosto daquelas pessoas é uma coisa marcante. Se houvesse uma reportagem da Sport TV aqui, nós seríamos intitulados de heróis do pinhal, por tudo o que esta gente viveu.»

Que o sejam através de nós! AD Mação: os heróis do pinhal.

Texto: David Marques – MaisFutebol
Foto: MaisFutebol