A Família Matias ganhou mais um momento para contar aos netos. Pai e filhos alinharam lado a lado nos distritais de Santarém e relataram ao Maisfutebol aquilo que sentiram naquela tarde.

A estante lá de casa ganhou um novo adereço.

Uma simples foto contém o sonho de uma vida inteira.

O futebol já tinha dado à família Matias muitas histórias para contar aos netos, mas nada como aquilo.

Mesmo cansados, certamente com uma expressão que não terá sido das mais abonatórias de sempre, aquele momento mereceu ficar eternizado assim como foi, sem filtros.

Pai e filhos alinharam lado a lado no mesmo jogo, pelo Moçarriense, modesto clube da segunda divisão dos distritais de Santarém.

Um feito que, de tão raro, mereceu a atenção do Maisfutebol. «No ano passado já tinha jogado com o meu filho mais velho, a propósito de uma festa de despedida que o clube organizou em minha honra, mas nunca pensei nisto…». Na voz de Mário Matias ainda era visível alguma incredulidade com o sucedido dias antes.

Nas vésperas de completar 43 anos, «o Velho» de Moçarria conta que chegou a arrumar as botas na gaveta, mas sentiu que ainda havia algo para concretizar. «Regressei para ajudar o clube naquela época, porque alguns jogadores começaram a falhar. Mas quando regressei impus como condição poder jogar com os meus filhos. Um deles ainda era júnior, pelo que era suposto demorar mais um ano», contou.

Aos 17 anos, Rodrigo (à direita na foto) já tinha sido convocado antes para os seniores, mas limitou-se a ver do banco o pai e o irmão Leonardo a trocarem umas bolas.

A oportunidade surgiu na jornada passada, frente ao Porto Alto. Mário, habitual titular, até começou no banco, mas saltou para o campo na segunda-parte, entrando pouco depois o filho mais novo.

Rodrigo, de 17 anos, estreou-se pela equipa de seniores e tinha à sua espera o duo da família, já habituado a essas andanças. «Tirámos logo uma fotografia naquele momento, emocionei-me, chorei um bocadinho até. Quando o vi a aquecer e depois a placa no ar para entrar, os meus colegas começaram logo a bater-me nas costas e a dizer “até que enfim, agora não podes abandonar, é que não podes!”».


Família Matias já é conhecida nas redondezas graças ao futebol

Um momento «único», o «ponto mais alto» da carreira de Mário que teve início há 27 anos, no União de Santarém, pela mão de José Peseiro. «Foi um prazer ter sido treinado por ele e digo isto mesmo tendo sido quase sempre aquele que não se equipava sequer para ir a jogo. É muito sincero e bom para os jogadores, percebe muito de futebol. Acho que tem sido injustiçado nalgumas análises e dá-me um gozo tremendo ver o sucesso que está a ter no Sp. Braga, depois da passagem no FC Porto», frisou.

Depois de conseguir o que tanto desejava, o avançado admitiu que o adeus ao futebol é mesmo para valer desta vez. «Era um sonho que sempre tive. O poder jogar com eles falou mais alto. Já posso pendurar as botas descansado. Nada superaria isto no futebol. Há cinco anos que ando a dizer que me retiro e até agora nada. Às vezes chego a casa com dores e queixo-me, mas a minha mulher nem quer saber. Qualquer dia tenho as malas à porta (risos)».

Mesmo considerando a hipótese de se retirar dos relvados, Mário já tem um passatempo para quando disser adeus. A entrevista aconteceu poucos minutos antes do início do treino dos juvenis do Moçarriense, onde é treinador. «Ser o mais velho é libertador. Toda a gente me chama “o velho” mas sempre no sentido positivo. Até os miúdos pequeninos me chamam assim e pedem-me conselhos. Isso é que me faz gostar do futebol», indicou.

«Era tipo os Horta, mas o meu irmão precisava de umas sarrafadas»

Rodrigo é o caçula da família, mas curiosamente não foi o último a enveredar pelo futebol. Leonardo, com mais dois anos (19) só fez do futebol uma opção de vida quando viu o irmão mais novo ingressar nas escolinhas do Benfica.

A aventura de Rodrigo na Luz não durou muito mas foi o tempo suficiente para aguçar o apetite do mais velho.


Rodrigo com a camisola do Benfica, onde cumpriu parte da formação

Depois de terem partilhado relvado com o pai, ambos dizem-se «orgulhosos» por terem concretizado um «sonho antigo», e não têm dúvidas a indicar o pai como o melhor jogador da família. «Sempre foi nosso amigo e ajudou-nos muito. Hoje jogo com o número 5 em homenagem a ele, porque era o número que usava», contou Rodrigo, dizendo também que um dia sonha poder replicar aquilo que acontece atualmente com os irmãos Horta, André no Benfica, Ricardo no Sp. Braga. «Adorava poder jogar com o meu irmão a um nível profissional, mas também contra, até porque ele volta e meia merecia levar umas sarrafadas (risos)»

A boa disposição impera acima de tudo, muito possivelmente porque terá sido um dos tais ensinamentos transmitidos por Mário aos descendentes.

E é dessa forma que olham para o futuro, garantindo que o legado da família Matias fica em boas mãos. Ou, neste caso, em bons pés. «Em 27 anos de carreira posso dizer que não tenho inimigos no futebol e todos me recebem em festa por onde quer que vá. Gostava que os meus filhos um dia também fossem reconhecidos primeiro como homens, só depois como jogadores», concluiu “o Velho” Mário.

Texto e fotos: Maisfutebol.iol.pt