Entorse da Tibiotársica

Após algumas crónicas mais pessoais (ser fisioterapeuta no futebol, a importância da fisioterapia na modalidade e a importância que dou ao fator psicológico na reabilitação) chegou a altura de direcionar as crónicas para o inicio do nosso campeonato que, para muitos, iniciará em Agosto. Esta é a altura certa para conhecer algumas lesões/patologias, formas de intervir e acima de tudo, prevenir!

O futebol é a modalidade desportiva mais popular e com mais praticantes em Portugal, sendo considerado como uma das modalidades desportivas onde o risco de lesão é mais elevado. Nesta modalidade como em várias outras, existem essencialmente dois tipos de lesões: as traumáticas (agudas) e as de sobrecarga.

As lesões traumáticas resultam quase sempre de um choque súbito (com o solo ou com o adversário) e o seu diagnóstico habitualmente é quase imediato, assim como a impotência funcional inerente. Exemplos destas lesões são: a entorse do tornozelo e do joelho; as fraturas; a rotura de meniscos, dos ligamentos laterais do joelho e do ligamento cruzado anterior; a luxação da articulação acrómio-clavicular, os hematomas intramusculares, as roturas musculares, etc.

Por outro lado as lesões de sobrecarga surgem de uma forma mais impercetível e evoluem lentamente no tempo sendo o resultado fundamentalmente da ação de microtraumatismos de repetição sobre os tendões e músculos, os ossos e as articulações. Exemplos destas lesões são: a doença de Osgood-Schlatter, doença de Sever, nos adolescentes; a tendinose do rotuliano; as fraturas de fadiga do pé e da tíbia, a lombalgia, a isquialgia, a pubalgia, etc.

Uma das lesões mais comuns no futebol é a entorse da tibiotársica ou por experiência pessoal, aquela que mais frequentemente surge no meu gabinete. A entorse da tibiotársica, mais conhecida como entorse do pé, implica o estiramento excessivo ou rompimento de ligamentos. Vulgarmente é provocada por movimentos bruscos, traumatismos diretos ou o apoio incorreto do pé no solo. As articulações são constituídas por ligamentos (pequenas faixas fibrosas que normalmente unem dois ossos) sendo estas estruturas as que conferem estabilidade à articulação. Uma lesão articular ocorre quando um ou mais ligamentos são estirados ou se rompem, quer seja por inversão (quando o pé torce para dentro suportando o peso do corpo) ou por eversão (quando o pé torce para fora). Naquele instante, surge dor e por vezes edema (inchaço).

Qual a severidade da lesão?

Normalmente as entorses são classificadas de Grau I, Grau II e Grau III.

Grau I – estiramento dos ligamentos sem rutura mas com ligeiro edema. Pequena ou nenhuma perda funcional sem instabilidade mecânica da articulação.

Grau II- rutura parcial dos ligamentos. Dor, ligeira equimose, edema e alguma perda da capacidade funcional e instabilidade leve a moderada.

Grau III – rutura completa dos ligamentos. Edema e equimose grave. Perda de função e mobilidade articular anormal – instabilidade severa. O atleta é encaminhado para cirurgia.

Que procedimentos deverão ser realizados após a lesão?

Recomendações do Fisioterapeuta – (M)RICE

REPOUSO (Rest) – O atleta deve cessar a prática desportiva imediatamente para não agravar a lesão. Nas primeiras horas deve evitar carga sobre o membro lesado. Atenção, evitar a carga no membro não é sinónimo de imobilizar a articulação.

MOBILIZAÇÃO (Mobilization) – Algumas publicações/estudos recentes já substituem o repouso (rest) pela mobilização precoce (mobilization). É extremamente importante que o atleta continue a mexer o pé. Movimentos lentos para cima e para baixo (respeitando a dor) para gradualmente restabelecer o movimento.

GELO (Ice) – Assim que possível deve aplicar gelo (de preferência em imersão). A aplicação imediata do gelo reduz temporariamente a circulação sanguínea na região, limitando a dimensão do edema.

COMPRESSÃO (Compression) – utilizar uma ligadura para comprimir e reduzir o edema.

ELEVAÇÃO (Elevation) – deitado deve elevar o pé para promover a redução do edema.

Com o passar do tempo é importante aumentar a frequência e intensidade dos movimentos do pé, iniciando o fortalecimento dos músculos envolventes. Os exercícios devem ser realizados de forma progressiva e assim que possível devem ser executados com peso do corpo sobre o pé (sempre orientado por um fisioterapeuta).

Por último, e talvez a etapa mais importante do tratamento desta lesão, iniciar um conjunto de exercícios de proprioceptividade (a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, a posição e orientação de cada articulação e a força exercida pelos músculos), também designados de exercícios de estabilidade articular (exercícios realizados em superfícies instáveis como por ex. trampolim, tábua freeman, areia, colchão, etc). Este tipo de exercícios também podem ser executados na pré-época como forma de prevenirmos a lesão ou uma reincidiva.

Após a entorse do pé é normal o atleta sentir desconforto e medo no regresso à prática desportiva sendo nestes casos aconselhável a utilização de uma ligadura, pé elástico ou uma órtotese de proteção. A utilização das mesmas não deve de ser contínua para que a articulação se mova o mais “natural” e eficaz possível (sem condicionamentos).

Quanto tempo demora a recuperar?

O tempo de recuperação depende essencialmente do Grau de lesão. Uma entorse de grau I normalmente demora entre 1 a 2 semanas, enquanto uma entorse de grau II de 3 a 6 semanas. Contudo, são múltiplos os fatores que influenciam o tempo de recuperação para além da gravidade: se houve ou não cuidados imediatos (RICE+Mobilization), o tipo de tratamento, a atividade profissional ou ocupação, a forma física do atleta, a alimentação, se necessitou de cirurgia, a idade, a severidade dos sintomas e se houve ou não lesões anteriores na mesma região.

NOTA: Este texto trata-se de um artigo de opinião, um artigo de conteúdo breve e resumido. Se apresenta sintomas ou suspeita de lesão, fale com um fisioterapeuta. Este avaliará adequadamente a sua situação e determinará com rigor a lesão em causa e os procedimentos que deverão seguir.

 Carla Santos – Fisioterapeuta