Depois de conseguir ser campeão com a modesta equipa do U. Chamusca e do no ano seguinte ter ganho a Taça de Ribatejo, este ano as coisas não correram da melhor forma e, após a sua saída do Fazendense houve algumas polémicas em seu torno.

Por estas razões fomos falar com o treinador Mário Nelson para saber o que realmente se passou e quais as suas ideias para a próxima época.

Futebol Distrital de Santarém (FDS): Depois de vários anos como jogador, na época de 2012/2013 iniciou a sua carreira de treinador, na U. Chamusca e, logo no primeiro ano conseguiu conquistar o título de campeão distrital. Quando entrou neste projecto pensou que isso seria possível?
Mário Nelson (MN):
 Antes de aceitar o convite da U. Chamusca tive de ponderar muito bem, pois a minha vida estava orientada de outra maneira. O que estava planeado era ser director desportivo de um clube, o qual prefiro não nomear, mas a partir do momento que percebi que o projeto não tinha ‘pernas’ para andar, decidi aceitar a proposta da formação da Chamusca. Quando cheguei ao clube, deparei-me com uma equipa limitada e com dois ou três jogos de interdição do campo, por problemas da época anterior. Na temporada de 2012/2013, muitas equipas apostaram forte para ganhar, mas acreditei naquele gente humilde e, quando chegamos a acordo disse ao presidente, António Timóteo, ao Nelson Pires, ao António Alves, ao Tiago Silva e ao ‘Papis’, “venho para ser campeão”. Óbvio que sorriram e não acreditaram que era possível. Todavia tive um excelente grupo de trabalho, o melhor a todos os níveis que tive até hoje, ambiciosos, trabalhadores, rigorosos, sérios, exigentes e com um espírito de grupo inabalável e uma vontade enorme de ganhar que os levou a conquistar o tão desejado título. O mérito foi todo deles, eu ‘apenas’ fui levado por eles. Hoje só posso agradecer aos atletas que orientei na Chamusca por terem acreditado em mim, correrem por mim e seguirem as nossas orientações, minhas e as do Rui de Sá, do César Carvalho e do Bruno Jorge. Todos acreditaram desde o primeiro dia e conseguimos com muito trabalho. Nunca vou esquecer aquele clube e as pessoas.

FDS: No ano seguinte deu o ‘salto’ e foi treinar a equipa do Fazendense, na 1.ª Divisão Distrital, novamente com a conquista de mais um título, a Taça do Ribatejo 2013/2014 e com um 4.º lugar no campeonato. Foi uma época positiva ou esperava uma melhor prestação da sua equipa?
MN:
A época no Fazendense foi, claramente, uma época muito positiva. Foram incutidos hábitos diferentes, foi preciso outro tipo de postura, porque o contexto era outro, um plantel mais experiente, onde encontrei jogadores com anos de clube, com hábitos instalados, com situações tidas como estatutos adquiridos, mas que iam completamente contra as minhas ideias. Falei com o presidente e definimos como objectivos criar uma equipa que fosse respeitada, que fosse intensa, tivesse qualidade de jogo, ambição e ganhasse a Taça do Ribatejo, nunca esquecendo o campeonato. E foi mesmo isso que aconteceu, ganhámos a taça, derrotando as melhores equipas. Fomos disciplinados e atingimos os nossos objectivos.
A equipa de Fazendense voltou a ter ideias, a ser respeitada, tinha mística e jogava em todos os campos para ganhar, foi difícil mas as pessoas adaptaram-se e todas puxavam para o mesmo lado. É de relembrar que, 90 % da equipa veio da 2.ª Divisão Distrital, desde cedo que perdemos jogadores importantes – o Joel saiu para o Coruchense, o Dionisio teve uma lesão grave, o Paulito mudou o horário no trabalho, o Laranjeiro foi trabalhar por turnos e o Júlio lesionou-se no menisco – perder cinco titulares e continuar a lutar é algo fantástico e que mostra a vontade dos jogadores, tinha gente de carácter – o Paulo Nuno, o Palhoto – eram grandes exemplos ali. Foi uma época difícil e muito desgastante, mas atingimos os objectivos e serviu para crescer. Agradeço a oportunidade de treinar nesta instituição.

FDS: Este ano as coisas parecem não lhe ter corrido tão bem e acabou por abandonar o comando técnico da equipa após a eliminação da taça frente ao Amiense (actual finalista), nessa altura era o 5.º classificado a seis pontos do líder do campeonato (Coruchense), o que correu mal?
MN:
 A época até estava a correr dentro do que foi programado, excepção feita aos quatro pontos perdidos nos dois jogos com a U. Chamusca e à eliminação da taça, de todo injusta, na qual o Amiense só rematou por uma vez à nossa baliza, anularam-nos um golo limpo, mas estava destinado que teria de ser assim. Eu não saí por causa da eliminação da taça. A minha vida na altura não me proporcionava continuar, não podia continuar a prejudicar os meus filhos, a eliminação da taça só precipitou algo que estava definido para o dia 1 de Março, estivesse em primeiro e na taça ou não.
No campeonato estávamos em quarto lugar, a cinco pontos do segundo e seis do primeiro (com vantagem sobre eles, ganhamos 0-5 em Coruche e empatamos 1-1 em casa), éramos a equipa do campeonato com menos derrotas, tínhamos o segundo melhor ataque e a melhor defesa do campeonato, em igualdade com os Empregados do Comércio. Na semana que decidi pôr termo ao meu contrato com o Fazendense, íamos defrontar o primeiro classificado entre outros adversários, ainda havia muito por decidir. Não quero com isto desculpar nada, porque o grande responsável sou eu e, em todos os plantéis que gerir, serei eu a dar a cara na derrota ou no insucesso, agora que me enganei em muito jogador que escolhi isso é verdade. Logo no início, com a saída do Palhoto que seria o capitão, a perda do Dionisio, ambos miúdos da terra, sérios, trabalhadores e que queriam muito um Fazendense diferente, percebi que as coisas não iam ser fáceis para nós, pois o Paulo Nuno já tinha decidido acabar, o Júlio tinha saído, o Mação também, ou seja, o núcleo duro de gente de carácter tinha saído. Assumo todas as responsabilidades nos empates com a Chamusca, o resto foi positivo, a equipa jogava bem, era alegre, era pressionante como gosto, tinha qualidade de jogo, identidade, mas erros individuais graves iam causando muita instabilidade no grupo. Nunca saía pelos resultados, até porque acreditava e muito no título e eu sabia bem que no sucesso apareceria muita gente, no insucesso morre-se órfão. Eu nunca quis ser capa de jornais, as minhas equipas são disciplinadas (em 3 épocas, 4 expulsões, só uma por agressão), digam-me quem pode gabar-se disto?! São equipas com qualidade de jogo, que jogam em todo lado, olhos nos olhos, e que trabalham muito, logo não tenho por onde fugir, tenho consciência e convicções firmes do que sou é do que quero, erro como todo ser humano e assumo, mas sinceramente esse não foi o caso ali. Mas quero esquecer isso, porque o Fazendense é um grande clube e sai bem com o presidente e a massa associativa, não quero beliscar essa relação.

FDS: Algumas semanas após a sua saída, foi ver um jogo do Fazendense e as coisas não correram bem, acabando por se gerar alguma confusão em torno da sua presença, o que se passou?
MN:
Não quero falar mais sobre esse jogo. Fui ver a convite do director, mas alguém no fim, para que não se falasse da exibição miserável e do resultado, procurou em mim o álibi. Só me deixa mágoa tentarem criar situações entre mim e gente que me conhece bem, alguns até em quem acredito mais do que qualquer outra pessoa. Como disse da última vez, ‘fruta podre cai sozinha e Deus é justo e protege quem trabalha e é verdadeiro’, e isso eu sou. Não quero tecer mais comentários a respeito disso.

FDS: Após esse jogo houve algumas declarações e ficou a ideia que a sua relação com o guarda-redes (Nuno Carrapato) do Fazendense não era a melhor, no entanto este mesmo jogador, após o empate 0-0 em casa com a U. Chamusca teve uma declaração para o jornal Record onde dizia “temos um treinador com métodos de trabalho muito próximo de divisões profissionais, muito competente e seguro das suas ideias”, o que aconteceu para as coisas mudarem?
MN:
A minha relação com o Nuno foi sempre boa, para além da relação profissional, estabelecemos uma relação de amizade. Estive sempre disponível para o ajudar a todos os níveis, nunca lhe virei a cara, até mesmo, quando semana após semana, o Nuno ia hipotecando os nossos objectivos com erros individuais, e vários jogadores no grupo me diziam que com ele não dava, que era impossível, que era o pior com quem tinham jogado, e garanto-lhe, o Nuno não me prejudicou a mim, prejudicou o Fazendense. E pelo que sei, já muita gente me dá razão, mas mais uma vez fui infeliz e caí na cilada de alguém, a que convinha aquele espectáculo todo e que nos chateássemos uns com os outros. Fui inocente e caí no que estava preparado para denegrir a minha imagem, sem perceber o porquê. Uma coisa eu sei, o Nuno gostava da minha pessoa, apreciava muito o meu trabalho e a prova disso é que o comparou com José Mourinho, José Peseiro, Boby Robson, entre outros, isso para mim foi uma grande valorização pessoal. Sou a mesma pessoa de quem o Nuno falou no Record, mas existem pessoas que não vivem bem com a crítica e que têm muita dificuldade em assumir os erros, preferindo apontar os outros, mas eu não sou assim. Desejo tudo de bom ao Nuno e, espero que tenha muito sucesso, só tenho pena que comigo as coisas não tenham corrido bem. Esta situação deu para conhecer mais umas pessoas, revelaram-se.

FDS: O Fazendense terminou a época em 3.º lugar a 12 pontos do campeão (Coruchense), qual a sua opinião sobre o desempenho da equipa durante a época?
MN:
Acho que poderíamos ter tido um desempenho mais competente nalguns momentos, fomos pouco responsáveis e tivemos pouco compromisso, jogar para ganhar tudo e assumir que queremos isso não é para qualquer um. Como é possível falar-se em pressão a este nível, em que o futebol é um ‘hobby’ bem remunerado, em alguns clubes, em que fazemos o que gostamos, se temos medo, se não temos coragem para nos assumir nunca podemos chegar longe. Ao longo da época muita gente queria viver com as nossas vitórias, mas no primeiro mau resultado era tudo colocado em causa, ninguém tem nada a apontar ao nosso trabalho no Fazendense e, a prova disso era o convite que havia para renovar, as pessoas estavam muito satisfeitas connosco, mas ‘água mole em pedra dura tanto bate ate que fura’, foi isso mesmo que aconteceu. Estava farto, cansado, desgastado, da falta de ambição, essencialmente dos problemas acessórios que eram criados e que faziam com que se perdesse o foco do que era importante. Acima de tudo, queríamos e conseguimos deixar hábitos melhores que os existentes, não brincámos com o esforço feito pelas pessoas que para cumprirem e nos darem condições, não nos desculpámos com o estado do campo que, para uma equipa que queira jogar prejudica, chegamos a ter apenas 11 jogadores  disponíveis, nunca falamos disso, porque isso não era importante, importante era estar focado no trabalho. No geral, correu muita coisa mal, que as assumo na íntegra, desculpo os jogadores porque fui eu que os escolhi, mas para se lutar por tudo a estrutura tem de ser forte, e o treinador só pode pensar e planear o treino e o jogo.

FDS: E sobre o campeonato em geral, o que achou? Quais as equipas que o surpreenderam pela positiva? E pela negativa?
MN:
 Foi um campeonato nivelado por baixo. No meu ponto de vista, acho que os jogadores e os treinadores cada vez têm melhores condições de trabalho e, ao invés, as equipas apresentam  um futebol com uma intensidade menor, os jogos têm de ter mais qualidade, tem de haver mais espectáculo.
Face ao líder do campeonato, não o deixo de felicitar por tal sucesso, todavia para mim o Fazendense e Mação eram as melhores equipas, sou suspeito, mas é a minha opinião. Para mim, o U. Tomar, o Torres Novas e os Empregados do Comércio, fizeram uma boa época. Por sua vez, as desilusões, talvez tenham sido o SL Cartaxo, que julgo ter qualidade para mais, o Mação que apostou forte e, por fim, o próprio Fazendense pelo final de época, que acabou por perder muitos pontos e não atingiu o segundo lugar, que estava perfeitamente ao alcance.

FDS: Estamos perto da final da Taça Ribatejo, na qual se irão defrontar o GD Coruchense e o Amiense, o que espera deste jogo? Quem acha que irá sair vencedor?
MN: O Coruchense é o favorito, mas o Amiense esta lá e todos conhecemos aquela gente que onde entra é para ganhar, e tendo conta que esta época apostou na prata da casa merecia esse prémio, mas sinceramente acho que os homens de Coruche vão vencer. Que seja uma grande festa, que todas a equipas sejam dignas deste dia.

FDS: Em relação ao futebol no nosso distrito, qual é a sua opinião? Acha que a AF Santarém tem feito um bom trabalho?
MN:
 Na minha opinião, o futebol do nosso distrito precisa de uma reorganização. Os clubes precisam de se organizar, ter uma perspectiva futura com ideias e projectos ambiciosos, não devem pensar época a época com o dinheiro que vão tendo. Todas as estruturas para terem sustentabilidade precisam de apostar forte na formação, alicerçada com gente competente que dê garantias. Existindo 3 a 4 clubes com sustentabilidade porque ainda existem muitas câmaras a apoiar os mesmos, corremos riscos sérios de perder clubes por desistência pelo simples motivo de as pessoas se sacrificarem em prol dos clubes e cada vez ser mais difícil. Uma aposta forte na formação será de todo a ideia mais séria e competente, precavendo um futuro difícil, mas também não se pode colocar qualquer um a desempenhar a função de treinador/educador, os clubes têm de perceber que a competência e o trabalho de qualidade para a formação tem um preço, que depois de um trabalho bem feito dará os seus frutos e será recuperado, penso que se não for assim nunca seremos um distrito competitivo, tanto num campeonato nacional de seniores como no nacional nos escalões de formação.
Quanto ao trabalho da AF Santarém, não me quero alongar muito, mas julgo que devia rever o estado dos vários clubes e tentar arranjar maneiras para tornar os clubes sustentáveis (menos taxas, despesas, etc.), do resto prefiro ficar calado. A única magoa que tenho com a AFS é que, na gala para a eleição de melhor treinador fui excluído porque ainda não tinha terminado o nível 1 de treinador e sendo uma entidade que incentiva a que as pessoas ligadas ao futebol tirem cursos, não podia uma pessoa que ainda não era considerada na altura treinador estar nomeado. Qual não é o meu espanto quando no Tejo Cup organizado pela mesma entidade,vejo que 95% dos indivíduos que andam com as equipas não têm nível 1 e muitos nunca os vi numa palestra organizada pela entidade. É triste.

FDS: Esta época está a terminar, neste momento os clubes já estão a preparar a próxima época. Já tem propostas?
MN:
 Existe uma ou duas possibilidades, vamos ver se as coisas se concretizam, mas não estou com pressa. Gosto de planear e preparar as coisas com calma, se tiver que acontecer acontece , não quero um clube qualquer e treinar por treinar, quero um clube que tenha organização, ambição e ideias com base na formação, e que me apresente objectivos não só para o presente, mas também para o futuro. Penso que dei provas da qualidade do nosso trabalho e que vai aparecer alguma coisa. É claro que tenho que mudar algumas coisas, nomeadamente ao nível da postura que, por vezes, me prejudica, mas hoje estou bem mais ponderado e tranquilo. Vamos ver o que acontece, por enquanto não há nada garantido.

FDS: Quais são os seus objetivos pessoais como treinador, a médio prazo?
MN:
 Os meus objectivos como treinador são claros, eu não ando no futebol para brincar. Já não se ganha o que se ganhou um dia, logo ou andamos para trabalhar, para desenvolver competências e os clubes ou não vale a pena. Quero fazer uma carreira melhor do que a que fiz como jogador, sei que tenho perfil para tal, tenho noção das minhas aptidões, mas também das minhas limitações, tenho de crescer, aprender. Uma das razões pelas quais optei orientar o Fazendense, foi saber o quanto o presidente era complicado e que o clube era o ‘cemitério’ de treinadores. Queria testar-me logo de início e sair daquele clube pelo próprio pé, com proposta para renovar e ouvir o presidente dizer que tinha sido o melhor treinador que ali passou. Estas coisas só me deram mais força e vontade, tendo em conta os grandes nomes que por ali passaram. Quero ser profissional de futebol, não desisto desse sonho, quero muito chegar lá, não escondo isso de ninguém e sei que um dia irei atingir os meus objetivos, agora é esperar que me seja dada a oportunidade para o mostrar.

Texto: Rafael Silva